segunda-feira, 2 de novembro de 2026

"SAUDADE BONITA"

 Tenho saudades dos domingos 

da minha infância,

daquele tempo esquecido 

que passou e não volta mais. 

Lembro-me de nos juntarmos todos, 

olho para trás e vejo a mesa cheia,

 com os meus pais e os meus irmãos 

mais velhos e eu, a observar o mundo

 pelos olhos deles. 

Havia o cozido à portuguesa com o toque

 único das mãos da minha mãe. 

Sentavamo-nos todos juntos 

num silêncio cortado 

pelo tinir dos talheres, 

enquanto o cheiro forte das carnes e da

 hortaliça nos invadia, 

e inebriava os sentidos. 

Depois, o paladar vestia-se de festa 

com o sabor da aletria docinha 

ou a fatia fofa de pão-de ló, regada 

com o calor do Malvasia. 

Ainda guardo a ecoar na memória 

o slogan da Voz dos Ridiculos que ouvíamos

 no rádio e que dizia:

 " Quando a Voz dos Ridiculos fala, o mundo

 acredita e ri" e nós riamos todos juntos

 partilhando a mesma cumplicidade. 

O dia avançava devagar,

 o ritual de levantar a louça 

e ajudar a minha mãe na lide de lavar,

 enquanto o meu pai no seu canto preferido

 se perdia nas páginas do jornal 

" O Primeiro de Janeiro". 

Quantas saudades daqueles domingos 

que não eram apenas um dia da semana

 eram o lugar onde fomos felizes!


Fernanda Duarte Cabral 

03/11/2026


" O NATAL DA MINHA INFÂNCIA "

 O Natal da minha infância 

tinha o cheiro da resina do pinheiro 

que eu ajudava a enfeitar, 

o calor da braseira sempre acesa, 

e o brilho dos sapatos no fogão.

Na véspera, o ritual era meu; 

engraxava com cuidado os sapatos 

 da família toda colocando-os 

perfeitamente alinhados 

em cima do fogão a lenha, 

à espera de uma magia, 

que já pairava no ar.

Depois, juntavamo-nos todos

 à volta da mesa, o meu pai, 

a minha mãe, os meus três irmãos

 e eu. 

Servia-se a caldeirada como lhe 

chamávamos, 

aquele aconchego fumegante de batatas 

cozidas, bacalhau e couves 

regados com azeite, a saber a união. 

E o paladar continuava em festa, com

 as rabanadas de vinho e os bilharacos

 dourados, feitos com carinho 

pelas mãos da minha mãe.

Havia também o bolo-rei, 

daquele que eu não gostava

e deixava de lado, com a rebeldia 

própria de ser a mais nova. 

Mais tarde, ia à missa do galo de mão dada

 com a minha mãe, rasgando o frio 

no xaile partilhado, que tinha pertencido 

à  minha avó. 

Às vezes, pelo caminho 

via bocados de papel de embrulho 

levados pelo vento e na minha doce

 inocência dizia: "Mãe, o Pai Natal já passou

 por aqui". 

A noite mal passava, num sono leve 

e apressado, ansiosa por correr para 

a cozinha na manhã do dia 25. 

Ia espreitar se os sapatos alinhados

 guardavam o milagre: uma saia nova, 

um casaco quentinho, um guarda chuva

 para o inverno e o aconchego dos chocolates

 e num dia especial, que nunca mais esqueci

 o abraço, de uma boneca só minha. 

Aquela noite, não alimentava apenas o

 corpo,aquecia-nos a alma 

num tempo sagrado

 onde fomos tão ricos, 

Apenas... 

por estarmos ali, todos juntos!


Fernanda Duarte Cabral 

30/10/2026


Fernanda Duarte Cabral 

1/11/2026

SALETE

 Há amizades que se tornam o nosso porto seguro no meio da correria da vida. 

Hoje, lembrei-me de tudo o que significas para mim e decidi colocar em palavras um bocadinho do que sinto.

Espero que consigas ver nestes versos todo o carinho e gratidão que tenho, por te ter na minha vida.

Este poema é para ti!

" NA PRESSA DOS DIAS"

 Na pressa dos dias e dos desassossegos

a tua amizade é o meu cais seguro,

bastam as nossas conversas sem pressa,

o som do teu riso cúmplice,

para o relógio esquecer as horas.

O teu abraço cura o cansaço do mundo,

porque o teu coração 

sabe sempre ler o meu.

Caminhamos lado a lado,

sob qualquer céu, dividindo os nós 

multiplicando os laços.

A tua presença é a luz do entardecer 

acalma, acolhe e faz o tempo parar.

Obrigada, por seres o porto, 

a palavra certa, a minha casa

no meio da tempestade.


Fernanda Duarte Cabral 

2/11/2026