"SAUDADE BONITA"
Tenho saudades dos domingos
da minha infância,
daquele tempo esquecido
que passou e não volta mais.
Lembro-me de nos juntarmos todos,
olho para trás e vejo a mesa cheia,
com os meus pais e os meus irmãos
mais velhos e eu, a observar o mundo
pelos olhos deles.
Havia o cozido à portuguesa com o toque
único das mãos da minha mãe.
Sentavamo-nos todos juntos
num silêncio cortado
pelo tinir dos talheres,
enquanto o cheiro forte das carnes e da
hortaliça nos invadia,
e inebriava os sentidos.
Depois, o paladar vestia-se de festa
com o sabor da aletria docinha
ou a fatia fofa de pão-de ló, regada
com o calor do Malvasia.
Ainda guardo a ecoar na memória
o slogan da Voz dos Ridiculos que ouvíamos
no rádio e que dizia:
" Quando a Voz dos Ridiculos fala, o mundo
acredita e ri" e nós riamos todos juntos
partilhando a mesma cumplicidade.
O dia avançava devagar,
o ritual de levantar a louça
e ajudar a minha mãe na lide de lavar,
enquanto o meu pai no seu canto preferido
se perdia nas páginas do jornal
" O Primeiro de Janeiro".
Quantas saudades daqueles domingos
que não eram apenas um dia da semana
eram o lugar onde fomos felizes!
Fernanda Duarte Cabral
03/11/2026


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