quinta-feira, 2 de abril de 2026

"MURMÚRIO"

 O dia chegou e o teu rosto é agora uma manhã de nevoeiro que o sol desfaz.

Há um silêncio novo, já não espero, já não procuro, apenas sinto o sol a aquecer onde antes doía.

Caminho sem pressa mas às vezes ainda tropeço num gesto teu, um murmúrio ainda teima em vibrar dentro de mim.

Ainda guardo no coração um cantinho cheio de "nós" mas, já não me sufoco com a tua ausência, a saudade agora é visita, entra de mansinho e logo vai embora.

Sou este equilíbrio estranho entre o alívio de te ter perdido e o eco de te saber em mim. A tua presença já não dita o compasso do meu tempo pois agora sou eu, quem habita este lugar!


Fernanda Duarte Cabral 

02/04/2026

quinta-feira, 26 de março de 2026

"LiBERTAÇÃO "

 Lavei os olhos no sal das minhas lágrimas.     E de repente a luz da verdade deixou de me encadear

Já não entrego os meus versos a quem não os sabe ler, a porta onde outrora me perdi é agora o marco onde me reencontro inteira e sem segredos.

Troquei os  tons cinzentos da espera pelas cores vivas da minha própria luz, não preciso de viagens nem de molduras  estreitas onde eu não caiba inteira.

A minha alma é a única casa que aceito habitar, abro as janelas de mim, inspiro profundamente e não procuro mais o que nunca me pertenceu 

Agora.... A minha libertação

sou eu!


Fernanda Duarte Cabral 

quarta-feira, 25 de março de 2026

"O BRILHO DOS TEUS OLHOS"

 Eras uma estrela pequenina, o sol a bater na falésia, no tempo em que o mundo era o teu respirar.

A tua boquinha abria-se em sorrisos, nas nossas conversas entre avó e neto. Eu devolvia-te o sorriso, beijava as tuas mãozinhas sentindo o milagre de um amor completo.

Hoje, a voz já é outra, mais firme, mais segura, as mãos cresceram, o abraço ficou maior, mas o brilho dos teus olhos guarda a mesma ternura.

A estrela que nasceu daquela ilha de águas cálidas, é hoje o sol que ilumina o meu caminho, passo a passo em cada nova descoberta.

Um dia, vais ler o que o meu peito sentiu e descobrir o mar de amor que tenho guardado para ti. Terás sempre em mim o calor deste ninho!

Fernanda Duarte Cabral 

domingo, 22 de março de 2026

"SEM PRESSA"

 A manhã abriu-se quando a luz do dia  tocou o chão .

Segui caminho, num passo lento e atento sem pressa de chegar a lado nenhum.

Habitei o silêncio, esse lugar onde te encontro, longe do ruído, a sós com o que sinto.

És a minha calma, a raíz de cada pensamento, a cor que guardo no olhar, o porto seguro onde a minha  alma descansa. 

Guardo-te assim, num segredo só meu, onde o mundo pára e só ficamos...

Tu e eu!


Fernanda Duarte Cabral 

"CHÃO DE TERNURA"

 Houve um tempo em que o meu mundo cabia inteiro entre a lã do xaile da avó e o som da tua voz. 

O único lugar à minha medida era o teu colo, um refúgio feito de algodão e paciência, onde os meus medos de criança se tornavam pequenos.

O balanço do teu corpo era o ritmo que me acalmava, enquanto ouvia a canção que me cantavas e que ainda hoje sei de cor.

Guardo esse lugar dentro de mim. 

Sempre que a vida me pesa, fecho os olhos e volto ali; ao calor da tua pele e ao silêncio doce de quem sabe que, nos teus braços nada de mal me acontecia.


Obrigada mãe, por me teres tecido o chão com esse xaile e essa canção!


Fernanda Duarte Cabral 

sexta-feira, 20 de março de 2026

" O MEU GUARDA- CHUVA" (INFANTIL)

Levei o meu guarda -chuva às bolinhas

Com muitas cores a passear

Parecem pequenas joaninhas

Que a chuva veio cumprimentar


Saltitei no meio das poças 

Com as botas a salpicar 

Entre risos e cambalhotas 

Pus todas as cores a dançar 


Espreitou o céu azulinho

Puxou as nuvens pelo pé 

E o sol que é muito fininho

Fez-me cócegas no boné 


E quando o sol voltar a brilhar 

Com o seu atrevido jeitinho 

O guarda- chuva vai-se fechar

E ficar à espera num cantinho.


Fernanda Duarte Cabral 

20/03/2026

" A CURVATURA DE UM GESTO"

Há objetos que guardam a curvatura

de um gesto,

o chapéu pousado no silêncio,

ainda sustenta a sombra do teu olhar.


O tempo fechou o armário 

mas não conseguiu calar o cheiro 

que o teu chapéu guarda, um aroma 

que não tem nome nos livros mas,

que o meu coração reconhece como

" o cheiro do pai".


O chapéu agora é feito de silêncio 

mas, se eu encostar o rosto ao seu feltro,

ainda ouço, o som dos teus passos a chegar,

e o peso manso das tuas mãos.


Pouso-o de novo devagar, como 

quem guarda um tesouro no escuro.

 O armário pode finalmente fechar-se,

 mas o teu chapéu, ficou aberto em mim

 como um abraço que me protege, 

 do frio da tua ausência.


Fernanda Duarte Cabral