sábado, 28 de fevereiro de 2026

"O SEGREDO"

 Aquela gaveta fechada encerra um segredo procuro uma chave esquecida que me ajude a abri-la, finalmente encontro-a.

Sinto o frio do metal na mão, oiço o som do trinco num estalido seco, o ferro morde a madeira antiga.

 A gaveta cede devagar como quem revela um segredo guardado. Lá dentro, um papel gasto e amarelado dobrado em quatro guarda o peso de uma saudade antiga

As palavras  escritas com pressa ainda ardem, como um abraço que não se deu, a tinta desbotada desenha nomes, que o tempo tentou em vão apagar. 

Com um sorriso trémulo começo a ler:"

 "Meu amor, escrevo-te para que não me esqueças, guardo o teu lugar à janela e a saudade que me invade o peito é um relógio que não anda".....

Fecho a gaveta e guardo a chave, mas o silêncio agora é diferente, o segredo deixou de ser do metal

 Simplesmente... 

É de quem recorda

que o tempo não levou!


Fernanda Duarte Cabral 

...

"O PEQUENO MESTRE"

 Aquele objeto pequenino votado ao abandono num canto de uma caixa de cartão ajudou a coser com linhas de esperança os retalhos da minha vida. 

Havia sedas de risos antigos e linhos gastos pela saudade. Pedaços de cores desbotadas pelo tempo, que agora se unem num abraço apertado formando o mapa de quem me tornei. 

O pequeno mestre de metal, descansa no escuro da caixa que guarda as minhas lembranças feitas dos retalhos ,no sossego da obra rematada 

na paz de quem já não precisa de lutar.


Fernanda Duarte Cabral 

27/02/2026

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

" ONDE O CÉU NÃO TEM CHÃO"

 O dia nasceu e o amanhecer é um compasso lento, vou caminhando devagar sob o primeiro sol, carregando o peso de quem pensa demais.

Tateando o silêncio que me envolve é nessa carga que te encontro, procuro a fragilidade da pétala mesmo antes de ser flor, com uma brancura que não se colhe, apenas se habita.

 O seu perfume é uma memória que insiste em ficar. Quero levar-te comigo não como imagem, mas como silêncio.

Distraída, perco o fio do caminho e quando olho para o céu vejo apenas uma superfície onde a lua teima em aparecer, tendo as estrelas por companhia.

O céu não tem chão e eu perdi o meu. Fico aqui suspensa, entre o que fui e o que levo de ti, uma memória branca que não sabe para onde vai.


Fernanda Duarte Cabral 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

"TÃO LONGE DE TI"

 Sinto- me tão longe de ti

 como se o fôlego fosse um eco

 o caminho um mapa sem fim, 

onde o horizonte é um reflexo

 de um tempo que foge de mim.


Estás perto mas noutra margem 

num silêncio que o medo criou,

sou apenas sombra e miragem

no rasto do que não ficou.


Mas sei que a distância é ponte

que o norte ainda se alcança 

pois vejo em cada horizonte 

o brilho da nossa esperança 


E mesmo que o passo se canse

e a voz se perca no vento

o amor há -de saber regressar 

ao destino, ao momento....

 

De nos voltarmos a encontrar!


Fernanda Duarte Cabral 


"FAROL APAGADO"

 Os meus olhos estão tão tristes

procuro sinais no silêncio da noite 

nas mensagens que não chegam.

Será que ainda gostas de mim?

ou já me esqueceste por entre as sombras?


O ecrã do telemóvel é um farol apagado que

 já não ilumina o meu rosto, as horas passam

 como vidro moído e o café arrefece sem eu

 dar por isso.


Guardo o teu nome num canto da boca

tenho saudades da tua voz

e sinto tanto frio!

chamo pelo teu nome

mas só oiço o silêncio, mais nada!


Enrolo-me no cobertor da tua ausência 

e sou apenas um eco à espera de resposta,

até perceber que o silêncio que me dás 

é a única palavra que te resta para mim.


Fernanda Duarte Cabral 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

"A TRANÇA DO TEU CABELO"

 A trança dos teus cabelos retém um lindo sol doirado

 verso solto de um poema, um poema inacabado.

É geometria viva, o brilho exato que nunca se apaga,

 muda o tempo, mas o laço permanece, atado à saudade que em mim amanhece.

Procuro-te agora no mapa do céu, onde a tua trança se fez constelação,

 fico ali suspensa nessa luz, até que a noite se dissolva e a aurora me devolva ao chão.

Mas, levo comigo o teu fio entrançado que o tempo não solta, nem o vento desfaz

és o nó de sangue, o meu outro lado, que em cada silêncio me sopra a tua paz.

Caminho na terra mas olho para cima onde a luz guia o meu passo incerto, somos dois versos da mesma rima.

Tu.... aí no infinito

Eu... aqui tão perto!


Fernanda Duarte Cabral 

11/4/2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"NÓ CEGO"

 A manhã desfaz-se como um nó cego

 meço a estrada mas não estou lá,

 levo nos dedos a poeira de um gesto antigo

 escrevo o que o vento esquece na berma,

 e o dia passa por mim como um estranho,

o que sobra, é um silêncio sem chão.

 O horizonte fecha-se como uma pálpebra cansada 

o resto, é o escuro a ganhar balanço

 penso naquilo que não digo, 

naquilo que não quero dizer, 

mordo a ausência como se fosse um fruto.

 Sou o lugar onde a voz tropeça,

 o rasto de quem nunca chegou a vir,

 um nó cego no meio do nada,

o resto é o que eu não sou...


 E a noite, é só um teto prestes a ruir.


Fernanda Duarte Cabral 

25/02/2026

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

"O LUGAR DO SILÊNCIO"

 Olho através da vidraça embaciada 

a chuva cai lenta e sem pressa

como esta tristeza em mim instalada 

que não se apressa nem se confessa.


Lá fora o mundo agita-se em água e vento 

aqui dentro o silêncio ganha voz

mora nas sombras de cada momento 

neste vazio que cresce entre nós.


Vem como a maré lenta e cinzenta 

despindo a alma de toda a cor

uma presença que cala e se ausenta

feita de sombra de frio e de dor.


Neste silêncio pesado 

que arrefece o coração 

é um nó que aperta e não desata

despindo a alma de toda a paixão.


Mas toda a chuva há-de ter fim e se aquieta

e o nó que aperta há -de ceder

pois mesmo a alma mais cinzenta e secreta

guarda o segredo de saber florescer.


Fernanda Duarte Cabral 

19/02/2026

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

"GRITO"

 Disseram que o seu lugar era o silêncio mas ela transformou o grito em faísca e resiliência incendiando o que antes era medo.

O seu poder não é herança, nasce das cicatrizes que contam histórias que ninguém conseguiu calar

Ela, não pede permissão ela, simplesmente reivindica o espaço que sempre foi seu porque o seu grito já não caminha sózinho...

e o mundo enfim, escuta!


Fernanda Duarte Cabral 

08/03/2026

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

"BARCO NO CAIS"

 Num barco atracado no cais 

entrego-me à solidão 

e o que pesa não é o barco

 é o que trago no coração.


Ancorado na dor 

deste meu desassossego,

sem saber se o que me prende

é o medo ou o apego.


Não é a âncora, nem o ferro

nem a corda ou a corrente,

é o teu nome meu amor

ancorado na minha mente.


Sou um barco com rumo

mas sem vontade de ir,

pois o único porto que quero 

é ver o teu olhar a sorrir!


Assim me deixo estar

entre a maré e o chão, 

com o teu nome escrito

na palma da minha mão 

pois, mais vale estar preso

ao que em mim ainda vive,

do que ser livre no mar

e nunca te ter tido!


Fernanda Duarte Cabral 

16/02/2026




domingo, 15 de fevereiro de 2026

"GOSTAVA DE SER PEQUENINA"

 Gostava de ser pequenina 

como a pétala de uma flor,

 para caber na tua mão

 e sentir o teu calor.

Seria um segredo bem guardado

 com um detalhe de cor,

perfumando o teu caminho

 para te poder dizer:

- "Bom dia meu amor"!


Gostava de baloiçar no vento,

sem pressa de chegar 

beber as gotas de orvalho 

quando o Rei Sol acordar.

Viver num mundo de cor

onde o tempo se demora,

ser apenas um sussurro

que a brisa leva embora.


Depois de tanto voar

por entre o céu e o chão,

voltar a ser a pétala mansa

no aconchego da tua mão.

E, quando o dia findasse 

no silêncio do luar

pousava no teu peito

só... para te ver sonhar!


Fernanda Duarte Cabral 

15/02/2026


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

ACORDA LISBOA"

 Lisboa acorda em segredo 

Chora a guitarra com saudade

Ecoa pelas esquinas

Dentro da própria cidade


Em Alfama e Mouraria 

Há sempre um lamento vão 

É o fado da despedida 

Nascido no coração.


Nas vielas onde a lua de deita

Mora um grito que o peito não cala 

É a sombra que o destino aceita 

É o silêncio que o xaile embala


Com o negro xaile embrulhado 

O fado nasceu um dia

Com o destino traçado 

Envolto em melancolia.


A saudade que o peito invade 

Neste cantar de dor e luz

O fado é a nossa liberdade 

A carregar a mais doce cruz


É um aperto no peito sem nome

É uma sede que nos consome

É um bem querer que nos fez

Esta mágoa de ser português.


Fernanda Duarte Cabral 

11/02/2026 ( feito para a ALEPON)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A "NOITE CAI DEVAGAR "

 A noite cai devagar 

com as aguarelas lá no horizonte 

em tons alaranjados

e cores em tom de pastel

a embelezar o nosso entardecer

e cai, cai como uma cortina

que vai descendo lentamente 

sobre o dia.

A noite apodera-se de mim vagarosamente,

envolve-me num oásis estrelado

e é hora de sonhar!

Deixo a minha alma à solta

num jardim de alegrias,

fabrico sol no sono, encontro-me

reconstruo as faíscas,  medito

na maldade que há no mundo

e fico a chorar num sentimento profundo.

A noite cai devagar e com ela

chega o luar e a nostalgia

de sonhar contigo para

jamais querer acordar.

As estrelas brilham como diamantes,

a cidade adormece silenciosa,

sem pressa,envolta em penumbra

misteriosa que se adensa

na minha alma como se o tempo

respirasse em silêncio.

A noite cai devagar e quando cai

a nostalgia chega de mansinho,

para roubar o meu sono, e me fazer

adormecer na saudade 

de um tempo que partiu, enquanto 

espero um lindo amanhecer.

Deixa-me silenciar para ouvir

o som da tua voz, a voz

que sacudiu o meu mundo

e vai burilando o cristal que sou.

Então... mudo a minha história,

renovo os meus sonhos,

porque o mundo adormece

sem se importar, enquanto...

A noite cai devagar!


Poema escrito a várias mãos 



"NO MEU MUNDO"

 No meu mundo

o tempo é raíz e certeza

cresce para dentro da terra

antes de ousar tocar o céu.

No meu mundo

eu viajo num sonho

poeticamente encantado,

onde cabem as pessoas

de sentimentos profundos

que fazem crescer 

amor e gratidão.

No meu mundo 

cabem todos os sonhos

embora a vida vá matando alguns.

Neste mundo imaginado,

tudo seria diferente 

apenas imperaria 

a parte boa dos seres humanos 

sem trincheiras, apenas

com campos cheios de flores

e entardeceres de encantar,

com amor e amizade,

onde tudo é de todos.

Quero ver desaparecer 

o ódio e a dor

aqui, ainda há solidariedade 

e grandeza.

Calei, sofri, chorei 

e a solidão passou 

a ser o meu mundo,

a natureza se fez leveza

terminou a tortura

dos corações com tristeza.

Então....

juntemos as forças 

que movem o mundo,

o brilho do amanhã 

espera por nós

com a esperança de que o sol

vai voltar a brilhar!


Poema escrito a várias mãos 

08/02/2026

domingo, 8 de fevereiro de 2026

"REGRESSO A CASA

" A quem ensinou o meu coração  a encontrar o caminho de casa e continua a ser a minha luz"


Foste a moldura onde desenhei a vida

 a voz que ecoava no silêncio da espera, 

amar-te não foi a escolha,

foi o regresso a casa.

E em cada gesto,em cada traço 

descobri que o amor tem o teu nome.

Hoje, és o porto onde a minha

 alma repousa

a rima perfeita que o destino escreveu 

provando que o meu coração 

sempre foi teu.

Mas agora, os abraços são ecos

 no silêncio ,

e os  sonhos, retratos de um tempo

 que partiu.

Assim, no vazio que o tempo insiste

 em desenhar, acredito no que ainda 

está por vir, pois sei que o amor 

não se encerra na partida,

apenas se transforma em luz

que guia a minha vida.


Fernanda Duarte Cabral 

08/02/2026